EAD no Brasil
A Revolução Silenciosa que Superou o Ensino Presencial
O ano de 2024 marcou um ponto de inflexão histórico na educação superior brasileira. Pela primeira vez, o número de estudantes matriculados em cursos de graduação a distância (EAD) ultrapassou o de alunos em cursos presenciais. Este marco não é um evento isolado, mas o clímax de uma década de transformações profundas, impulsionadas por tecnologia, mudanças sociais e novas regulamentações.
De acordo com os dados mais recentes do Censo da Educação Superior 2024, divulgado pelo INEP, dos mais de 10,2 milhões de universitários no país, 50,7% estão na modalidade online. Isso significa que 5,18 milhões de brasileiros hoje constroem seu futuro profissional através de plataformas digitais.


Neste artigo, vamos mergulhar nos números, analisar os fatores por trás dessa expansão, discutir os desafios de qualidade, as novas regras do jogo e o que o futuro reserva para a educação a distância no Brasil.
Os Números da Expansão: Uma Década de Crescimento Exponencial
A ascensão do EAD não foi repentina. Trata-se de uma tendência consolidada ao longo dos últimos dez anos. Enquanto a modalidade a distância florescia, o ensino presencial enfrentava uma retração gradual, culminando na virada de 2024.
Entre 2014 e 2024, o número de matrículas em cursos EAD teve um aumento impressionante de 286,7%. Em contrapartida, os cursos presenciais viram suas matrículas diminuírem 22,3% no mesmo período, segundo dados do INEP compilados pela CNN Brasil. O gráfico abaixo ilustra essa mudança drástica no panorama do ensino superior.

Essa expansão foi liderada majoritariamente pela rede privada, que concentra 95,9% de todos os alunos de EAD. A modalidade se tornou a principal porta de entrada para a educação superior no país, especialmente em cursos de licenciatura e tecnológicos. Conforme o censo, 82,6% das matrículas em cursos tecnológicos e 68,5% em licenciaturas já são a distância.
Por que o EAD Cresce Tanto? Os Fatores por Trás do Sucesso
Diversos fatores convergem para explicar a popularidade massiva do EAD. Não se trata apenas de uma mudança de preferência, mas de uma resposta a necessidades concretas da população brasileira.
1. Acessibilidade e Flexibilidade
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, o EAD quebra barreiras geográficas. Ele permite que estudantes de cidades do interior, com pouca ou nenhuma oferta de cursos presenciais, tenham acesso a uma formação de qualidade. Além disso, a flexibilidade de horários é crucial para um público que precisa conciliar trabalho e estudo. Dados do Semesp mostram que o EAD atrai um público mais velho: apenas 30,7% dos ingressantes têm até 24 anos, contra 67% no presencial.
2. Custo Reduzido
O fator financeiro é, sem dúvida, um dos principais atrativos. As mensalidades de cursos a distância são significativamente mais baixas. Um levantamento da Hoper Educação, citado pela revista VEJA, apontou que a mensalidade média do EAD era de R$ 223,90 em 2023, enquanto a do presencial chegava a R$ 750. Essa diferença torna o sonho do diploma universitário uma realidade para milhões de brasileiros.
3. Avanço Tecnológico e Pandemia
A evolução das plataformas de aprendizagem, com recursos interativos, inteligência artificial e gamificação, tornou a experiência EAD mais rica e engajadora. A pandemia de COVID-19, por sua vez, atuou como um catalisador, forçando uma adaptação em massa ao ensino remoto e quebrando preconceitos tanto de alunos quanto de instituições.

Uma Desaceleração no Horizonte?
Apesar do marco histórico, a euforia do crescimento parece estar diminuindo. Análises do Semesp indicam uma forte desaceleração no ritmo de expansão do EAD. Após anos crescendo acima de 20%, a modalidade expandiu apenas 7% em 2023 e um tímido 1% em 2024.

Essa perda de fôlego pode indicar uma saturação do modelo, que já absorveu grande parte da demanda reprimida, principalmente do público mais velho. Contudo, o principal fator que deve moldar o futuro do EAD é a nova regulamentação implementada pelo governo.


As Novas Regras do Jogo: A Regulamentação do EAD em 2025
Em maio de 2025, o Governo Federal sancionou o Decreto nº 12.456, que institui a Nova Política de Educação a Distância. A medida visa elevar o padrão de qualidade e frear a expansão desordenada, trazendo mudanças significativas:
- Fim dos cursos 100% online: Cursos EAD agora devem ter, no mínimo, 20% de sua carga horária em atividades presenciais ou “síncronas mediadas” (aulas interativas ao vivo com turmas reduzidas).
- Cursos Vedados: A oferta de cursos como Direito, Medicina, Odontologia, Psicologia e Enfermagem foi proibida na modalidade EAD. Licenciaturas e outros cursos da área da saúde só poderão ser ofertados nos formatos presencial ou semipresencial.
- Avaliações Presenciais: Torna-se obrigatória a realização de pelo menos uma avaliação presencial por disciplina, com peso majoritário na nota final.
- Novos Formatos: A política define três formatos de oferta: Presencial (com até 30% de carga horária a distância), Semipresencial (composição obrigatória de atividades presenciais, síncronas e a distância) e EAD (com o mínimo de 20% de atividades presenciais/síncronas).
Especialistas, como a presidente do Semesp, acreditam que essas regras não levarão a uma retomada do presencial, mas sim a uma migração para o formato semipresencial, que combina a flexibilidade do online com a interação do presencial, tornando-se uma alternativa atraente para o público jovem.
O Dilema da Qualidade: Crescimento vs. Desempenho
O crescimento acelerado do EAD trouxe à tona um debate crucial sobre a qualidade do ensino. Indicadores do próprio Ministério da Educação (MEC) revelam uma disparidade preocupante.
Dados do Conceito Preliminar de Curso (CPC) de 2022, divulgados pelo G1, mostram que apenas 26,6% dos cursos EAD avaliados atingiram notas consideradas satisfatórias (4 ou 5). No ensino presencial, esse percentual foi de 38%. A diferença é ainda mais gritante quando se analisa onde os alunos estão matriculados: apenas 11,3% dos estudantes de EAD estavam em cursos com nota 4 ou 5, contra 42,3% no presencial.

Instituições argumentam que a comparação é injusta, pois o perfil do aluno EAD (mais velho, com maior defasagem escolar e menor renda) difere do aluno presencial. No entanto, a nova regulamentação e a maior exigência por parte do MEC buscam justamente endereçar essa questão, forçando um investimento maior em corpo docente, infraestrutura de polos e mediação pedagógica.
Conclusão: O Futuro é Híbrido
A ultrapassagem do EAD sobre o presencial é mais do que uma estatística; é o retrato de um novo Brasil, que busca na tecnologia uma forma de democratizar o acesso à educação superior. A flexibilidade e o custo mais baixo foram os motores dessa revolução, permitindo que milhões realizassem o sonho do diploma.
Contudo, o modelo enfrenta agora uma nova fase de amadurecimento. A desaceleração do crescimento e as novas regras do jogo indicam o fim da era da expansão a qualquer custo. O foco se volta para a qualidade, a interação e a eficácia pedagógica. O desafio para as instituições será equilibrar escala e excelência, enquanto o futuro da educação superior no Brasil aponta cada vez mais para um caminho do meio: o modelo híbrido, que une o melhor dos mundos digital e presencial.
Reference
1 – Inep divulga resultado do Censo Superior 2024 – Portal
2 – EAD supera ensino presencial pela primeira vez
3 – EaD cresce quase 300% em dez anos, diz Inep
4 – EaD cresce quase 300% em dez anos, diz Inep
5 – EAD supera ensino presencial pela primeira vez no Brasil | Dino
6 – Ensino superior a distância dispara no Brasil, mas há desafios
7 – Semesp comenta os principais dados do Censo
8 – Governo Federal regulamenta Nova Política de Educação
9 – Total de cursos superiores com avaliação satisfatória
10 – D12456 – Planalto
